Eu Sou Uma Assassina Sanguinária

Eu sei que a vida pode ser um pouco complicada. Eu cresci em uma teia de complicações. Pai ausente, mãe alcóolatra, nunca fui correspondida por um amor e nunca soube direito o que fazer. acho que foi assim que eu vim parar aqui.
Está frio lá fora e eu posso sentir isso através das pontas dos meus dedos da mão. Estão geladas feito pedras de gelo. Maldito dia que fui usar uma luva furada. Meu nariz também está gelado e me passa pela cabeça que, se eu tentar arrancá-lo é bem capaz de conseguir. Brilhante!
Eu não estou sozinha. Estou em um quarto pequeno e sujo. Não sei as manchas nas paredes são de barro ou de merda. O cheiro é horrível também, mas tudo isso – o sujo, o fedorento, a bilis – fazem parte do meu trabalho. É a milésima vez que eu acho que vou vomitar, mas estou acostumado, portanto respiro fundo e volta a minha tarefa. Como eu disse antes, não estou sozinha. Há um homem comigo. Um homem de meia-idade, baixo, gordo e careca. O tipo de homem desprezível. Ele soa em bicas e eu noto que o colarinho de sua camiseta está encharcado, assim como suas costas e as palmas de suas mãos, que eu sinto quando, num ato misericordioso da minha parte, afago suas mãos para lhe transmitir segurança.
Tem algo a ver com infância.
De qualquer maneira, ela sua porque sabe o que vai lhe acontecer e eu me arrepio porque sei o que tenho que fazer. Nem sempre é fácil. Tem pessoas que gritam e imploram, que lhe lançam olhares de arrependimento ou de confusão, não acreditam que uma pessoa como eu estou prestes a fazer o que geralmente faço. Mas a vida é assim, cheia de surpresas, principalmente em seus momentos finais.
A idéia de arrancar meu nariz continua presente em minha cabeça. Não sai de lá nem quando eu saco a arma do meu jeans. Acho que um pouco de tortura caberia bem hoje a noite. Não é porque estou com raiva ou coisa parecida, é só porque, hoje, parece apropriado – assim como de sábado parece apropriado comer pizza.
Antes de mais nada. Antes de cada vítima, de cada gota de sangue derramada eu preciso acender um cigarro. Eu enxergo esse momento, o de ter a vida de alguém em suas mãos, como sagrado. Assim como qualquer pessoa o consideraria também. (Médicos não tem fama de se sentirem Deuses?). Pois bem, eu não chego a me qualificar como Deus, mas acho que chego bem perto disso. Eu não acredito em inferno. O cigarro é a minha óstia e sua fumaça me purifica.
Um antes e um depois e eu posso voltar a ser a garota estranha que mora no andar de cima e faz bolos para as crianças do prédio.
Puxo a fumaça lentamente, deixando com que ela invada minha boca e siga direto para meu pulmão. Respiro fundo. Me posiciono cara a cara com a vítima. O homem está amarrado em uma cadeira de madeira e não pode se mexer. Eu sinto que ele gosta do cheiro do cigarro. Não sei se foi um gosto adquirido agora ou se é algo que o remete a sua infânca, ou aos tempos em que era alguém. Solto a fumaça em sua cara e o digo para respirá-la, pois talvz seja a última coisa que respire. Não sei quanto tempo mais eu posso me segurar.
O cigarro acaba.
A arma começa a pesar em minhas mãos. E, quando eu me preparo para apontá-la para o homem, me lembro que queria judiar dele um pouquinho. Não sei o que fazer, estou sem inspiração hoje. Talvez um nariz quebrado, então eu posso enganar a polícia mais uma vez. É.
Não, não é.
Estou sem paciência. Quero voltar logo pra casa eu acho. Quero me lavar e terminar aquele filme que comecei a assistir.
Aponto a arma para sua cabeça. Infelizmente ele começa a tremer. Não gosto quando eles morrem assustados, gosto dos valentes, que ficam a me observar enquanto eu me preparo. Gosto daqueles que sabem que merecem.
Ele tenta falar alguma coisa, mas como amordacei sua boca eu não consigo entender nada, e mesmo que conseguisse provavelmente não ligaria. Eu não ligo para essas pessoas. Pra mim elas são só mais uma coisa em minha lista de tarefas.
Eu sou bem paga pra isso.
Puxo o gatilho e disparo a arma. O barulho é seco e agúdo. Delicioso.
Eu fecho os olhos e acendo mais um cigarro. Caminho até o morto. Ótimo, de primeira. No meio dos olhos. Ele, agora, suporta um buraco vermelho, pegajoso e quente. Do jeito que eu gosto.
Não perco tempo em me livrar do corpo. Para os outros ele é só mais um indigente. Provavelmente será estudado em alguma escola de açougueiros e depois jogado junto com o resto desses indigentes. Numa montanha fétida de ex-seres humanos.
Eu não escolhi esse tipo de vida. Ela veio até a mim. Aparentemente me escolheu a dedo, porque o que eu tenho pode muito bem ser chamado de talento. Sei o que fazer pra doer, pra ser feio e lento. Sei o que fazer para ser indolor, invísivel e rápido. Sei onde atingir e onde procurar.
Só não sei o porquê.
Eu sou uma assassina sanguinária.
E assim continuarei até o fim da minha vida, pois não sei ser mais nada.
Gabriela P.

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