Vestido de Bolinhas
O sol brilhava no que prometia ser um dia lindo. Pessoas iam vinham
da cozinha, cada vez que uma pessoa entrava saia outra com as mãos completamente ocupadas, ora por enormes garrafas de suco de laranja ora por bandejas repletas de míni sanduíches.
As crianças corriam pelo jardim se esbaldando na lama que restara do aguaceiro do dia anterior e procurando algum meio de furtar os sanduíches e sucos que estavam postados na mesa implorando para serem degustados. Hora ou outra alguns deles eram expulsos a vassouradas da cozinha por algum adulto.
Justine estava sentada na escada descansando depois de carregar uma garrafa particularmente pesada de suco de laranja. Usava uma calça jeans e tênis allstar combinando com sua camisa verde estampada com algum desenho psicodélico dos anos 60. Observava um grupinho de meninos parado no extremo direito do jardim conversando e apontando para a garrafa que ela tinha acabado de trazer. Não pôde deixar de sorrir, adorava traquinagem de criança.
- Você vai usar aquele vestido de bolinhas na minha festa, não vai Justine. – Uma menina de cinco anos perguntou a ela.
- Mas claro que vou Anabel, ele já está separado em cima da minha cama. – Ela disse dando um beijo estalado na bochecha da menina. – Você vai usar suas orelhas de ratinha não vai. – A menina riu e beijou a bochecha de Justine.
- Justine o seu trabalho ainda não acabou, ainda tem muita coisa para ser feita nessa cozinha! – Ela ouviu a mãe gritar, ela colocou Anabel no chão dizendo que se veriam na hora da festa. Caminhou em direção à cozinha não sem antes roubar um punhado de sanduíches e entregá-los as crianças, que deram pulos de alegrias e foram se esconder no jardim para poderem desfrutá-los em paz.
O resto da manhã passou num piscar de olhos, com idas e vindas da cozinha, gritarias e brigas. Por volta do meio dia, hora do inicio da festa, o jardim já estava arrumado com mesas e cadeiras, sanduíches e tortas e no centro chamando a atenção de todos, principalmente das crianças, estava um bolo enorme, convidativo e cor-de-rosa, cor favorita de Anabel.
- Você realmente nos espantou com esse bolo Justine! – Seu primo Paulo lhe disse assim que ela o colocou em cima da mesa pouco antes dos convidados chegarem. E realmente Justine nunca ficara tão orgulhosa de algo como daquele bolo.
Agora, ela olhava-se no espelho e sorria, usava um vestido branco com bolinhas vermelhas e orelhas de ratinha que ela tinha feito para as crianças e não resistiu em ter uma para si.
- Você realmente está adorável querida. – Seu avô lhe disse assim que a viu.
- Obrigada vovô, não vai para o jardim.
- Agora não, venha, fume um cigarro comigo. – Ela aceitou o cigarro e se sentou de frente a ele.
- O que você tem vô.
- Acho que estou um pouco…nostálgico eu diria. – Ele falou com os olhos brilhando. – Anabel está fazendo cinco anos, é minha bisneta. Quantos anos você tem Justine.
- Vinte vô, só tenho vinte.
- Você diz só, Parece que foi ontem seu primeiro aniversário. Você só queria ficar comigo, era tão bom.
- Você sabe que até hoje eu só quero ficar com você. É o melhor amigo que eu tenho. Chega dessa nostalgia. Anabel deve estar louca para te ver. – O avô riu, apagou o cigarro e a seguiu.
Pra Justine era maravilhoso ter uma família tão grande. As festas sempre eram repletas de falatórios e risadas e ela nunca se cansava daquilo.
- Justine! – Anabel gritou saindo do colo da mãe e correndo em sua direção. – Você está com seu vestido, e olhe minhas orelhas, mamãe que colocou!
- Você está linda querida!
- Justine! – Ela se virou e deu de cara com Jorge, uma prima que ela não via há tempos. – Como você cresceu! – Ele disse a abraçando. – Quero que você conheça meu amigo. Você vai adorá-lo. Ele é cozinheiro. – Enquanto Jorge procurava seu amigo Justine foi cercada pelas crianças que queriam um pedaço de bolo. De coração partido ela tece de recusar e começou a andar de costas, no momento em que se virou se chocou de uma maneira tão forte com alguém que caiu para trás e bateu a cabeça na quina da mesa.
Tudo rodou e ela acabou deitando a cabeça no chão e fechando os olhos. Podia sentir algumas pessoas se juntando a sua volta e soube na ora que estava ficando vermelha. Ouviu a voz de alguém perguntando se ela estava bem e acabou murmurando um sim bem fraco e irritado. Mal as palavras saíram de sua boca e ela sentiu alguém puxar seus braços e acariciar sua cabeça. Ficou mais vermelha ainda.
- Tem certeza de que está bem, foi uma pancada bem feia. – Ela fez que sim com a cabeça e ele a ajudou a se levantar. Mais uma vez passou a mão em sua cabeça, bem onde ela havia batido e ela sentiu um arrepio.
- Joaquim! – Jorge gritou. – Era para você dizer oi e não jogá-la no chão. – Justine você está bem.
- Sim – Ela respondeu impaciente.
- Realmente eu sinto muito, quer um suco de laranja. – Ele ofereceu e ela o recusou com a mão, se levantou e ,impou a terra do vestido, deu uma olha ao seu redor e caminhou para a sala, estava por demais envergonhada pra ficar do lado de fora.
Pegou o maço de cigarros do avô e acendeu um, sentou-se na poltrona dele e ficou encarando a velha estante de livros poeirentos que tanto lhe causara espirros enquanto crescia.
- Oi posso pegar um. – Era Joaquim. Pela primeira vez Justine parou para observá-lo e não pôde deixar de sorrir. Ele era simplesmente adorável. Ela lhe entregou o maço e ele pegou um cigarro. Ao puxar a fumaça ele tossiu um pouco.
- Primeira vez. – Justine lhe perguntou enquanto lhe dava tapinhas nas costas. Ele fez que não com a cabeça e tossiu mais um pouco.
- Acho que não fumo desde que era adolescente. – Ele disse e lhe ofereceu um sorriso que ela retribuiu. Ficaram sentados se encarando por alguns minutos até que ela decidiu falar.
- Quantos anos você tem.
- Vinte e seis, por que.
- Por nada, só queria saber. É verdade que você é cozinheiro. – Ele revirou os olhos e soltou um sorriso amarelo.
- Não, não sou, eu tenho uma loja de discos. Jorge só inventou aquilo para que você ficasse encantada comigo e…
- Que tipo de discos. – Ela perguntou interessada, ele a encarou confuso, mas respondeu mesmo assim.
- Discos de vinil, bem antigos. É tipo um sebo, mas quando meu avô a abriu era uma sensação.
Eles ficaram conversando ainda por muito tempo naquela sala , falaram sobre suas bandas favoritas e sobre como a música era capaz de afetá-los, sobre as viagens que haviam feito e sobre as que sonhavam em fazer. Discutiram de política até seus filmes favoritos e só pararam de falar quando encontraram seus lábios colados.
Não foi uma coisa escandalosa ou arrebatadora, foi um beijo simples e querido. Assim que o beijo terminou eles se olharam e sorriram. Joaquim tentou falar alguma coisa, assim como Justine, mas ambos não conseguiram dizer nada e finalmente foram interrompidos por Anabel que exigia a presença de Justine para cortar o bolo.
Depois de cortado o bolo e finalmente apreciado (o que rendeu inúmeros elogios às habilidades culinárias de Justine) as pessoas começaram a se retirar. Justine não tinha conseguido falar com Joaquim desde que colocaram os pés no jardim. Sempre que ele tentava se aproximar algum parente ou amigo aparecia ora para elogiar o bolo ora para elogiar o seu comportamento com as crianças. Eles só voltaram a se falar quando ele veio se despedir.
- Bom…eu tenho que ir. – Ele falou meio tímido.
- Eu sei. – Ela sorriu com o canto da boca.
- Eu gostei de você Justine. – Ele deu um pequeno beijo em sua boca, se inclinou e sussurrou em seu ouvido. – Eu também gostei do seu vestido de bolinhas.
Outro texto do blog antigo, não faço idéia de quando foi escrito, mas cmo disse antes, eu estava em uma fase otimista, acho.
Gabriela P.
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- Published:
- Fevereiro 26, 2008 / 12:37 am
- Category:
- Série Justine
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