A Menina dos Cabelos Rosa
Essa história começa antes mesmo de você ter nascido. Antes de o tempo ser tempo e antes do mundo ser o que é hoje. A raça humana não existia ainda – pelo menos não como é hoje – e a natureza reinava brilhante e gigantesca, com cores fortes e vivas. O ar era mais puro, a terra mais árida e a água mais transparente do que é hoje.
Naquele tempo eu perambulava pelo Mundo, perguntando para a natureza da onde eu tinha vindo. Imaginava que tinha um pai e uma mãe, mas quando perguntava sobre eles só recebia risinhos irônicos das flores. Um dia, acho eu que ela estava cansada das minhas constantes perguntas, ela me respondeu, não sem antes despejar raios e trovões ao meu redor, que meu pai e minha mãe eram a terra. A terra suja e lamacenta que eu tanto odiava quando a natureza se punha a chorar suas dores.
Ela não aparentava ser muito forte, mas tampouco fraca. Era magra e baixa, tinha os dedos da mão extremamente delicados, longos, finos e levemente tortos (a unha do dedo mindinho da mão direita tinha uma cor diferente dos demais dedos), seus olhos eram da cor do mais brilhante malte que se podia encontrar na natureza e seus cabelos eram eletrizantemente rosa, do tipo que causaria inveja nos outros – se estes existissem -, pois ela era a única a suportar tamanha cor de cabelo.
Eu nunca entendi esse fenônemo. Por que seus cabelos eram rosa quando os meus eram de um preto sem cor e sem vida.
Eu a conheci quando ela tinha dez anos e eu quinze. Naquele tempo eu tinha certeza de que éramos os únicos seres-humanos e que minha missão era repopular, ou popular, a Terra.
A encontrei sem querer. Naquela época a natureza andava irritada comido. Eu tinha feito algum absurdo divino. Não lembro o que. E a senhora mãe, furiosa, começou a me ignorar quando falava. Nenhum vento, nenhuma chuva, nenhuma palavra. Quando comecei a pensar que iria enlouquecer por causa do silêncio perturbador, ela apareceu.
Pequena, frágil e com aqueles cabelos indiscretos.
Me apeguei.
Por mais que eu tivesse 15 anos, e a idéia do sexo se fazia mais presente a cada dia que passava em minha cabeça, não conseguia associar isso a menina de cabelos rosa. Ela era uma criança, uma simples companhia. Na verdade, uma companhia bem-vinda.
A natureza ainda falava com ela, porém na linguagem de sinais, portanto eu não entendia nada. Passou pela minha cabeça que talvez ela fosse muda. Teria de me adaptar, mas com o tempo de convivência e o aumento da confiança, da parte dela, por mim (eu já confiava nela desde o primeiro momento), ela começou a se abrir.
Um dia ela soltou um sim, eu fiquei surpreso, mas não disse nada. Um tempo depois, ela conseguiu me falar uma oração inteira e, depois de mais algum tempo, nós tivemos uma conversa de verdade. Durou alguns minutos, mas foi algo assim:
- Max? – Esse era meu nome, que foi chamado por ela. Quando eu a conheci a primeira coisa que falei foi o meu nome.
- Sim. – Eu atendi surpreso.
- Eu me chamo Violeta. – Irônico não? Uma menina de cabelo rosa se chamava Violeta. A natureza tem algumas brincadeiras estranhas.
- Bonito nome.
- A natureza quer que eu te diga por que ela não está falando com você. – Ela falou simplesmente. Eu larguei o que estava fazendo e dediquei toda minha atenção a ela.
- E por que ela está brava comigo afinal.
- É simples. Porque em todas as vezes que ela chorou você não perguntou a causa do choro.
Foi uma conversa mais ou menos assim, eu já tinha 17 anos e ela tinha 12. Perambulávamos o Mundo de mãos dadas, procurando algo para se fazer, algum animal para chamar de nosso ou, quando estávamos com vontade de fantasiar, procurávamos outros seres como a gente. Por muito tempo não encontramos ninguém.
Passamos os próximos doze anos andando e conversando. Enfrentamos a ira da mãe natureza, o sol forte e as temperaturas baixas. Nos conhecemos, nos divertimos. Eu me apaixonei pela menina do cabelo cor de rosa. Me apaixonei perdidamente.
Quando a menina de cabelos rosa fez 20 anos (eu me recusava a chamá-la de Violeta. Não era um nome que assimilava sua personalidade) ela me beijou. Foi durante uma tempestade. Estávamos em um abrigo improvisado por mim, e alguma coisa deveria ter deixado nossa mãe furiosa, pois ela descarregou em sua lágrimas. Pesadas e fortes. Desgastantes na verdade. A menina me abraçou e eu, em um ato protetor a abracei de volta. Quando percebi, ela tinha colado seus lábios no meu, algo doce e delicado.
Amanhecemos nos braços um do outro.
- E assim… – O pai disse a pequena menina de cabelos rosa sentada ereta em cima de suas pernas. Claramente excitada com a história. – Nove meses depois…você nasceu. Com esses cabelos tão especiais. Minha moranguinho. – Ele pego a menina e a colocou no colo.
- Mas, papai…A mamãe não tem o cabelo dessa cor. – O Pai sorriu.
- Mas ela tinha Magnólia. Com o tempo ele descolore.
- O que é descolorir?
- É perder a cor querida. Sabe, como quando você coloca água na sua tinta guache, ela não fica mais clara?
- Ahhh…
- Hora de dormir. – Ele a levantou e a colocou na cama e lhe deu um beijo de boa noite na testa.
- Pai?
- Sim
- Meu cabelo não vi perder a cor né?
- Não querida.
- Ótimo.
Ela se ajeitou melhor no travesseiro e dormiu.
Gabriela P.
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