Eleanor Rigby

ELEANOR RIGBY

 

 

 

 

                                   O dia cinzento trazia uma grande probabilidade de chuva, ventava muito e o frio era de congelar, quase não havia ninguém na rua exceto por um velho com um chapéu de palha quase desfeito e seu fiel cachorro, os dois estavam catando o lixo das pequenas casas de madeira da vizinhança. Era uma rua bem simples, comum nas cidades pequenas e litorâneas, ao fundo, podia se ver as ondas quebrando no mar e a umidade era tão incômoda quanto o frio.

No fim dessa rua havia uma enorme igreja, a maior e mais orgulhosa construção da cidade. Eleanor caminhava em sua direção carregando um saco com algumas batatas e pão, tinha sido encarregada de sair para comprar os mantimentos já que ninguém mais se atrevia a por a cara naquele frio de começo de dia. O fino casaco que usava mal dava para conter a tremedeira, seus dentes batiam tanto que já estavam começando a doer, suas finas canelas pareciam que iam se quebrar e havia um furo no vestido pelo qual o vento passava e batia direto em suas coxas.                                                

                        Ela se agarrou a sua sacola ao passar pelo velho e o cachorro, este lhe cheirou e começou a latir incansavelmente até que o velho o calou com um tapa. Encarou Eleanor e sua sacola com olhos de cobiça e ela acelerou o passo, o ouviu murmurar algumas palavras pra ela, mas não parou para prestar atenção. A voz do velho a seguiu até ela atingir os grandes portões de chumbo da igreja. Com grande dificuldade conseguiu abri-los. Havia começado a cair uma fina garoa e ela podia sentir todos os ossos do seu corpo gelar, correu o mais rápido que pôde para a igreja e entrou por uma porta lateral que dava direto para a cozinha, onde encontrou a Cozinheira e o Padre tomando um chá quente e conversando com um moço que lhe era desconhecido.

                                   - Finalmente Eleanor! – Exclamou a cozinheira irritada, se levantando e tirando a sacola das mãos dela de um modo grosseiro. – Foi para a capital comprar o que eu te pedi, porque demorou tanto?

                                   - O pão ainda estava assando quando eu cheguei. Tive que esperar ficar pronto. – A mulher a encarou a analisando para ver se o que ela dissera era mentira ou não, acabou acreditando, pois voltou a cortar o pão.

                                   - Acho melhor você ir colocar mais um casaco Eleanor, parece que está congelando. – O Padre lhe disse assim que notou seu estado. Eleanor agradeceu e foi pegar um casaco, tão fino quanto o que usava. Voltou para a cozinha e se pôs a ajudar a cozinheira que tagarelava com o moço como se não houvesse amanhã.

                                   - Tenho certeza de que irá apreciar muito este condado Padre Mackenzie, as pessoas aqui são maravilhosas. – A Cozinheira disse animada, depois deu uma olhada em Eleanor e acrescentou. – Bom quase todas as pessoas são maravilhosas.

                                   - Tenho certeza que sim, senhora. – O tal padre Mackenzie respondeu e lançou um olhar a Eleanor.

                                   - Por quanto tempo irá ficar aqui conosco. – Ela perguntou curiosa.

                                   - Eu não te avisei, disse o Padre, que eu o trouxe como meu substituto. Estou ficando por demais velho e preciso que alguém fique no meu lugar e que tome conta de Eleanor também. – Eleanor sorriu para o padre, mas seu sorriso morreu assim que a Cozinheira se pôs a falar.

                                   - Mas ela já é grande, não precisa nem ficar mais aqui, por que não a manda para um convento ou para trabalhar como empregada de alguém, mas provavelmente ninguém a queira, do jeito que é imprestável essa daí…

                                   - Ora não fale assim dela. – O Padre retrucou zangado. – Deus sabe como essa menina é boa pra mim, sempre esteve comigo desde que nasceu e eu sou muito agradecido pela presença dela, talvez ela não seja das mais inteligentes, mas imprestável não é com certeza. – A cozinheira ficou vermelha diante das palavras do Padre e lançou um olhar de ódio a Eleanor antes de voltar a descascar as batatas.

                                   - Pobre menina, a encontrei abandonada na porta da igreja, tão magra e tão doente, achei que não fosse sobreviver, não queria ficar com ela, mas acho que ninguém queria também, não foi aceita no orfanato e até falaram em sacrificá-la, como se ela fosse um animal, um absurdo isso sim, acabei a acolhendo e no fim saí ganhando, ela me trata muito bem, imagine sair nesse frio só porque me deu vontade de comer batatas. – Padre Mackenzie olhou para ela e lhe lançou um sorriso que não lhe foi retribuído.

                                   - Por isso ela deve agradecer ao senhor sempre que pode e não ficar resmungando pelos cantos. – A Cozinheira falou maldosamente.

                                   - Eu nunca fiquei resmungando pelos cantos! – Eleanor retrucou indignada e tomou um beliscão da Cozinheira.

                                   - Não seja malcriada menina!

                                   O Padre Mackenzie observou a tudo aquilo silencioso. Sentiu compaixão por Eleanor no momento em que pusera os olhos nela, não sabia da onde vinha esse sentimento, mas sabia que teria Eleanor como sua protegida.

                                   O resto da manhã se passou entre afazeres de cozinha e varrer o chão da igreja, ela não se importava muito em ficar sozinha, achava até que era melhor, geralmente quando estava acompanhada as pessoas tendiam a falar coisas horríveis sobre ela e sobre o fato de ela ser tão detestada que nem os pais a quiseram. Mesmo não querendo se sentir afetada por esses comentários, ela não podia deixar de imaginar o porquê de seus pais a terem abandonado. Passava horas acordada se revirando na pequena cama em que dormia imaginando a razão para ter sido deixada para trás ou imaginando que eles estavam arrependidos e a queriam de volta, todos seus sonhos de infância que hoje ela nem sequer ousava pensar mais. Não acreditadava muito na vida de qualquer maneira.

                                   Fazia dezoito anos desde que fora abandonada na porta daquela igreja, não tinha sido tão difícil assim assimilar o fato de que talvez ela não fosse tão querida assim no mundo como algumas pessoas eram, ela não sabia o que era amor e nem tinha curiosidade para descobrir. Desde criança tinha sido odiada por aquele condado inteiro, era como se ela fosse portadora de uma doença que dizimaria o condado inteiro se alguém ousasse falar com ela. Desde criança era maltratada na escola e a Cozinheira só a tolerava diante do Padre, pois quando esse não estava por perto era certo de que ela ganharia alguns hematomas novos, não que ela se importasse muito, por algum tempo chegou a achar que aquilo era amor, mas depois de observar algumas crianças na escola com seus pais descobriu que o tratamento que recebia não chegava nem perto do que o amor fosse.

                                   Era detestada pela professora e pelos colegas de classe, tinha o costume de falar sozinha, mas sendo uma criança sem amigos e morando somente com adultos, sua imaginação teve de resgatá-la da maneira que lhe era possível, através de criaturas imaginárias e animais falantes, costumavam dizer que ela era louca e jogar pedras quando passava, tinha inúmera cicatrizes ao longo do corpo devido a essas pedras, mas ela não se importava com isso também.

                                   Seu maior segredo era sua falta de fé, não acreditava em Deus e nem nas baboseiras contadas pela igreja, mas mesmo assim participava de todas as missas e recebia a hóstia e quando ninguém estava vendo cuspia no chão e arrastava para de baixo do banco, como era ela quem sempre limpava a igreja depois da missa ela se certificava de pegar suas hóstias descartadas em primeiro lugar. Não queria nem imaginar o que aconteceria se descobrissem que ela fazia isso, com certeza seria torturada em praça pública e talvez queimada na fogueira.

                                   A missa daquela tarde estava vazia devido ao frio, as poucas pessoas que estavam lá tremiam tanto que era possível ouvir seus dentes batendo, Eleanor estava sentada na última fileira perto da porta e, para sua infelicidade, Padre Mackenzie resolvera acompanhá-la deixando a Cozinheira totalmente chocada e brava com ela.

                                   - Como faz frio aqui. – Padre Mackenzie disse esfregando os braços. – Você não está com frio, Eleanor? – Como estava pouco acostumada a outras pessoas dirigindo a palavra a ela, demorou um pouco para responder, mas quando respondeu foi um não tão baixo que o padre achou que não tinha ouvido nada. – Você não gostaria de se sentar comigo mais para frente, acho que lá está mais quentinho.

                                   - Não obrigada, eu prefiro me sentar aqui atrás, mas se o senhor quiser pode ir lá pra frente, tenho certeza de que a Cozinheira não irá se importar em dividir um lugar com você. – Ela disse sem encará-lo. Ele ficou meio desconfortável, mas optou por não mudar de lugar. – Acho que não estou com tanto frio assim.

                                   Eleanor não entendia o porquê, mas se sentia muito incomodada pela presença do padre Mackenzie, era como se ele estivesse a vigiando, tinha a impressão de que talvez ele falasse dela para a Cozinheira ou coisa parecida, não acreditava que ele pudesse querer ser seu amigo ou coisa parecida.

                                   Chegou a hora da hóstia e pela primeira vez ela sentiu uma hesitação ao se levantar e ir para a fila. Com o padre Mackenzie do lado seria impossível se livrar do corpo de cristo e sair imune, tinha certeza de que se ele descobrisse relataria à Cozinheira sem pestanejar, por isso deu um jeito de furar a pequena fila e passar na frente do padre e assim que se sentou cuspiu a hóstia e a enfiou em baixo do banco um segundo antes do padre se sentar, ele a encarou por alguns segundos e sorriu, pegou a mão dela e beijou. Eleanor nunca se sentiu tão estranha na vida.

                                   A missa chegou ao seu fim e como sempre ela recebeu olhares raivosos dos presentes e permaneceu sentada acompanhada do padre Mackenzie, que sorria amavelmente para os passantes. Assim que a igreja se esvaziou ela continuou sentada esperando que o padre saísse, mas este não se mexeu.

                                   - Não vai embora? – Ele perguntou lhe estendendo a mão.

                                   - Não senhor, tenho que limpar se não a cozinheira vai reclamar.

                                   - Mas já está quase na hora do jantar, você vai acabar chegando atrasada.

                                   - Eu sempre chego atrasada, não me importo, é melhor assim de qualquer jeito, o senhor deveria ir ou chegará atrasado,

                                   - Não, eu faço questão de ficar aqui com você.

                                   - É melhor não, a Cozinheira vai achar que eu o fiz ficar e vai acabar brigando comigo e eu estou muito cansada para ouvir sermão, portanto é melhor o senhor ir.

                                   - Não precisa me chamar de senhor, John está ótimo, afinal eu não sou tão velho assim, e pode deixar que eu vou falar com a cozinheira e explicar tudo pra ela e…

                                   - É melhor não, por favor, você não sabe como ela é, adora jogar a culpa em mim por menor que seja o problema, seria melhor se o senhor fosse pra dentro sim, por favor. – Ela parecia tão desesperada que ele acabou cedendo aos pedidos dela e foi embora.

 

                                   - Me diga Padre, qual o problema de Eleanor. – Ele perguntou depois do jantar quando os dois estavam sentados apreciando um vinho.

                                   - Pobre menina, rejeitada pela sociedade eu acho, um doce de menina, mas a cidade a odeia, o prefeito tem horror a ela, não pode vê-la caminhando na rua que a trás arrastada pra cá, as crianças costumam jogar pedra nela quando passa pela rua, acho que ela nunca saiu muito dos muros dessa propriedade, nunca foi pra praia e nem vai dançar nesses bailes que se tem de vez em quando. Eu não me importo muito, porque, na verdade, não gosto muito desse bailes, muito barulhentos e coisa e tal, mas acho que para uma menina como ela seria ótimo se saísse um pouco. – John concordou com a cabeça e não pôde deixar de ter dó de Eleanor.

                                   Às quinze pra meia noite ela finalmente havia terminado de limpar a igreja e podia sentir seu estômago gritar de fome, tentou entrar sem fazer nenhum barulho, mas infelizmente ela derrubou uma cadeira que havia sido deixada no caminho, provavelmente aquela cozinheira gorda a havia deixado lá. Pegou a cadeira do chão e colocou no lugar, procurou nas panelas se havia sobras e não encontrou nada, já estava no segundo pedaço de pão quando John Mackenzie entrou na cozinha vestindo seus pijamas e a notou sentada no parapeito da janela comendo os pães velhos.

                                   - O que você está fazendo. – Ele perguntou curioso.

                                   - Jantando, ela respondeu.

                                   - Mas eu deixei seu jantar guardado no forno, você não viu. – Ela fez que não com a cabeça e sentiu-se envergonhada. Ele foi até o forno, abaixou a tampa e tirou de lá um prato bem cheio que fez seu estômago dar pulos de alegria. Sem perceber ela deu um sorriso.

                                   - Obrigada! – Ela disse e sentou-se à mesa, devorando o prato sem se importar com maneiras.

                                   - Por que você não procurou no forno.

                                   - Porque nunca está lá e eu sei disso, geralmente ela deixa algo na panela quando se lembra. Se não, eu como pão mesmo, já estou acostumada. – Ele a olhou incrédulo.

                                   - Como pode estar acostumada com isso, você deveria jantar na hora, assim como almoçar e tomar café da manhã e suas roupas de frio não são nenhum um pouco quentes, o modo como você vive, como você agüenta?

                                   - Não sei, existe coisa melhor eu acho, mas como nunca experimentei, isso o que eu vivo é a coisa melhor, então não tenho como sentir falta de algo que nunca tive. – Ele olhou pra ela admirado.

                                   - É uma bela maneira de pensar

                                  

 Gabriela P.


About this entry